Depois de S.A.R.A.H #2

Diana está diante da janela. Seus pensamentos confusos vão ganhando uma nova forma enquanto a mulher assiste o dia terminar da alta janela do pequeno escritório de investigação do Detetive Chave. A incerteza anterior vai dando lugar a uma fagulha de inspiração. Algo aconteceu e ela precisa descobrir o quê.


- Essa garota vai aparecer mais cedo ou mais tarde. Eu preciso mesmo é ir atrás do Detetive Chave! - Com um ligeiro movimento, toma em mãos sua bolsa de rastreadora e levanta seu capuz, indo em direção às escadas do lugar.


O Abrigo da Esperança foi fundado por Marcus Madureira há quase 50 anos. Madureira é, talvez, o homem mais importante do período batizado de "Depois de S.A.R.A.H". Ele estava lá quando tudo ruiu. Ele viu S.A.R.A.H tomar o poder. Foi por suas calejadas mãos que hoje todas as pessoas podem ler o Testamento da Terra. Ele revelou S.A.R.A.H ao mundo. O Abrigo Da Esperança tornou-se uma referência de paz e prosperidade. É uma cidadela com quase cinco mil indivíduos que trabalham juntos para prosperar e sobreviver. Hoje, o risco de vida não é como nos primeiros dias. Já existem pequenos abrigos e bases mais resistentes para enfrentar a implacável força de natureza selvagem. Aqui, por exemplo, há organizações que fazem a gestão do caos e arriscam um modo de vida mais ameno. O Clube dos Batedores, ou CB, é uma organização formada por corajosos e ágeis batedores que arriscam a vida percorrendo as ruínas do mundo, mapeando e reunindo informações sobre os locais. Já a Ordem Neutralizadora é responsável pela segurança de todas as pessoas. É comum ver escambistas vendendo ou trocando toda sorte de coisas no mercado do setor A, no centro do Abrigo da Esperança. Socorristas trabalham dia e noite nas enfermarias atendendo doentes e auxiliando feridos. Estão enfrentando uma epidemia de Febre de S.A.R.A.H, uma doença que torna o contaminado extremamente agressivo. Caçadoras-Coletoras saem diariamente em campanhas junto a Guilda da Caça em busca de alimento. Ainda que os N0m4dz rondem a região e os Testemunhos de S.A.R.A.H apareçam vez ou outra, tudo flui bem no abrigo.

Ah, e antes que você me pergunte: Madureira está desaparecido. Ele sumiu há quase vinte anos quando liderou uma missão de exploração no prédio de S.A.R.A.H. Desde lá, não temos notícias dele. Quem administra o Abrigo da Esperança é sua filha adotiva Julia Marinho - uma mulher séria e muito justa. Ela aprendeu com seu pai uma maneira possível de se manter lúcida neste mundo selvagem. É ela quem decide onde investir, quais missões receberão apoio e como os suprimentos devem ser distribuídos. No Abrigo da Esperança, toda pessoa tem direito a uma quantidade de mantimentos, desde que esteja realizando algum tipo de trabalho, que pode variar desde cuidar das hortas comunitárias até ser assistente de detetive, por exemplo.

- Lou, estou saindo. Não sei que horas eu vou voltar. A chave do escritório está aqui - disse Diana, subindo sua máscara até a altura do nariz.

- Já está quase de noite, Di. Onde é que você vai? - perguntou a velhota, com olhos arregalados. Ela é a secretária do pequeno prédio que é ocupado por outros profissionais, como o engenheiro Vitor e a Caçadora-Coletora Dre.

- Se alguém perguntar, disse que tirei o dia de folga - Diana sorri e vai em direção a porta. Lou assiste a menina, sem entender o que está acontecendo.

O exterior do Abrigo da Esperança não é dos melhores. Foi construído basicamente com todo tipo de material reaproveitável. Placas de zinco velhas, madeira e até partes de carro figuram as principais construções, que trazem uma sensação de viver num gigantesco ferro velho. O que quebra essa paisagem ocre são as árvores. É um lugar com muitas árvores frutíferas, pés de manga e caju figuram quase toda esquina. As hortas comunitárias também colorem de amarelo, verde e laranja a paisagem metálica e enferrujada. A torre do Clube dos Batedores possui um farol improvisado que chama a atenção no horizonte e parece que é para lá que está indo nossa heroína.

Trabalhadores nas Hortas Comunitárias do Abrigo da Esperança (imagem do Pinterest)

- Bru, preciso da sua ajuda - Diana cumprimenta a amiga com um sorriso apressado. A mulher a olha dos pés a cabeça e faz uma expressão de desdém. A noite dá seus primeiros toques de escuridão, iluminada apenas pela densa luz do Farol das Batedoras.

- Quando te chamei pra entrar no Clube, você não quis. Não vai me dizer que mudou de ideia?

- Ainda não mudei. Trabalhar com um detetive boêmio tem suas vantagens!

- Quais? - Bru a provoca. Diana revira os olhos e muda de assunto.

- Preciso ir lá fora! - Quando sua boca pronuncia as palavras, Bru muda de postura. Fica ereta e levemente irritada.

- Sem chance, princesa!

- É sério! - Diana retira a máscara do rosto - Olha pra mim. É uma situação de vida ou morte.

- Di, presta atenção. A gente se conhece a tempo demais pra ficarmos de joguinho. Você sabe que só dá pra sair do abrigo quem tem o cartão azul, salvo as missões muito específicas.

- Por isso tô aqui te pedindo. Eu preciso de um dia lá fora, só isso! - Diana faz uma expressão de súplica e olha para o cartão pendurado no pescoço de Bru.

- Tira os olhos do meu cartão! - Bru enfia o cartão por dentro de seu colete de couro - que porra você tá querendo lá fora? Morrer?

- Eu preciso investigar uma coisa. Se meu palpite estiver certo, vou ser promovida a detetive e não vou precisar ficar na cola do Chave - mente Diana - Talvez você mesma possa me ajudar.

- Não tô dizendo que vou. Mas conta direito esta história.

- Hoje a mãe de uma garota me procurou. A menina simplesmente sumiu. Ao que parece, estava de rolo com um dos seus batedores e estavam planejando fugir do Abrig... - O coração de Diana está acelerado. Ela sabe que se falhar, Bru pode desconfiar e ela não conseguiria sustentar a história por muito tempo.

- Um dos meus batedores? Que porra de história é essa? A única regra dos batedores é que não podemos ter um relacionamento. É uma profissão de alto risco, sabia? - Os olhos de Bru estavam orbitando fúria - Quem é o filho da puta? Me diz quem é, Diana! - A tensão de Diana se converte numa imensa satisfação. Bru tinha mordido a isca e agora era só seguir o plano.

- Eu tô investigando, Bru. Não posso ir falando. É o anonimato da fonte - Diana inventa qualquer coisa - mas parece que...

- Eu não tô aqui pra seguir regras... Não sobre isso. É o João? O Tim? Fala logo, porra! - Bru avança enfurecida pra cima de Diana, que respira fundo. Agora é a chance de ouro.


A) Deixar Bru se aproximar agressiva, enquanto tenta pegar o Cartão Azul sorrateiramente.


B) Dizer o nome de um dos batedores (João ou Tim) e pedir o Cartão Azul em troca.


C) Nocautear Bru quando ela se aproximar e roubar o cartão.

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